Quatro dias, mais de 2 mil marcas, 500 expositores e cerca de 200 mil visitas depois, a Beauty Fair 2026 fechou as portas do Expo Center Norte deixando claro um recado: o mercado de beleza não está só lançando produto, está redesenhando experiência, canal e cultura ao mesmo tempo.
Andamos pelos corredores, paramos em estandes, conversamos com marcas e voltamos com um caderno cheio de anotações. Separamos aqui as sete tendências que mais nos chamaram atenção. Algumas de olhar mais estético, outras de comportamento, mas todas com implicação direta em como marcas pensam identidade, produto e presença.
1. O Brasil virou point e o mundo está prestando atenção
Uma das cenas mais marcantes da feira não estava dentro de nenhum estande específico, mas sim no volume de público internacional circulando pelos corredores, com destaque para grupos coreanos acompanhando de perto o que as marcas brasileiras estavam apresentando. Não como expositores apenas, mas também como visitantes interessados em entender o que está funcionando por aqui.
E faz sentido. O Brasil é hoje o terceiro maior mercado consumidor de beleza e cuidados pessoais do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China, segundo dados da Euromonitor International compilados pela ABIHPEC, um setor que movimentou R$ 175 bilhões em 2025, com crescimento de 6,8% sobre o ano anterior, e que concentra 43,4% de todo o consumo de beleza da América Latina. O país também é o quarto que mais lança novos produtos de beleza no mundo, atrás apenas de EUA, China e Índia.
Quando um mercado desse tamanho também se mostra culturalmente relevante (plural, criativo, com marcas fortes e um consumidor engajado), ele deixa de ser só destino de venda e passa a ser referência de tendência. Fomos, por muito tempo, importadores de estética e comportamento, mas a Beauty Fair 2026 mostrou um movimento inverso acontecendo, o mundo olhando para cá para entender o que vem a seguir.

2. K-Beauty deixou de ser nicho e virou prateleira
Se antes K-Beauty era sinônimo de importado caro e difícil de achar, esse ano ficou claro que a categoria já é estrutural no varejo brasileiro.
A Osang Cosmetic apresentou uma marca desenvolvida na Coreia do Sul especialmente pensada para o consumidor brasileiro, cobrindo skincare, hair care e maquiagem de uma vez. A Ikesaki levou um robô para guiar visitantes até um quiosque dedicado a marcas como Medicube, Celimax, K-Secret e Elizavecca.
E a programação oficial da feira trouxe John Byun, da MTEX (distribuidora internacional especializada em K-Beauty), para falar sobre os movimentos que têm transformado o consumo global nas últimas décadas.
Não é mais somente "vender um produto coreano", mas também adaptar conceito, fórmula e narrativa coreana para a realidade e a pele brasileira. Skincare preventivo, rotinas em camadas, tecnologia aplicada ao cuidado: um vocabulário que já não soa estrangeiro para o consumidor por aqui.

3. Perfumaria árabe saiu do nicho e virou linguagem de marca
Se em outros anos a perfumaria árabe aparecia como categoria emergente, em 2026 ela já é presença consolidada e, mais interessante, começou a se espalhar para além do perfume. A Mercatus, submarca premium da Labotrat, estreou com três coleções de corpo e banho inspiradas em mercados diferentes (Feira, Souk e Kyoto), cada uma com fragrância própria em esfoliantes, hidratantes, body mist, sabonete líquido e até velas e difusores para casa.
A BR Brand levou 21 lançamentos de perfumaria árabe entre marcas como Khadlaj, Style & Scents e La Florentina, e a Phytoderm apresentou os Eaux de Parfum Malik e Zaya inspirados no mesmo universo.
Também notamos outras marcas nacionais, como a Cimed, explorando referências árabes em seus lançamentos da marca Mood (incluindo um body splash em aerosol), um sinal de que a estética já passou do nicho importado para o portfólio de grandes players locais.
O dado que sustenta esse movimento é forte: a perfumaria representa 23% de todo o mercado brasileiro de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, mais que o dobro da média global, que fica em torno de 11%. E entre quem já teve contato com a perfumaria árabe especificamente, 77% afirma conhecer bem a categoria, segundo pesquisa da Opinion Box apresentada na feira.
Também ganhou espaço o conceito de layering, que é a sobreposição de fragrâncias para criar uma assinatura olfativa única, com a Phyto Parfums apostando em “fast perfumery”, um portfólio de 60 eau de parfum em frascos de 30 ml pensados para experimentação e combinação.
Identificamos que o consumidor deixou de ser só receptor de fragrância pronta, e agora quer compor rituais, camadas e intensidades.

4. A live foi para dentro do estande
Live commerce deixou de ser conteúdo de rede social e virou infraestrutura física de feira. Pela primeira vez, a Beauty Fair montou a Arena Live Shop, em parceria com a StarLive: quatro estúdios funcionando simultaneamente, mais de sete horas de transmissão por dia, ocupados por redes como Monamie, By Linda, Léo Cosméticos e Nova Era, vendendo ao vivo direto do chão da feira para consumidores em todo o Brasil.
A Salon Line seguiu a mesma lógica em escala própria com 482 m² de estande dividindo espaço com mini-salas de transmissão simultânea em plataformas como TikTok Shop, Shopee, Mercado Livre e YouTube, tratando o estande como ecossistema de conteúdo, negócio e criador, e não só vitrine de produto.
A feira virou canal de venda online em tempo real.

5. Estande deixou de ser vitrine e virou experiência
Complementando o ponto anterior, ficou nítido que o estande vitrine tradicional está perdendo espaço para o estande voltado a experiência. A Vizzela transformou seu espaço em “Vizzela Land”, um festival de beleza com jornada gamificada, ativações abertas ao público e áreas de conteúdo pensadas para continuar repercutindo nas redes depois que a feira acaba.
Esse movimento acompanha uma mudança de fundo no comportamento do consumidor de beleza: ele não compra só o produto, compra a memória de ter estado ali. Para quem trabalha com design de marca essa ativação é um lembrete de que ambiente físico também é peça de comunicação, e que a experiência ao redor do produto pode carregar tanto valor de marca quanto a embalagem em si.

6. Multifuncionalidade virou argumento de compra
Entre os lançamentos mais comentados da feira, um padrão se repetiu: produtos que resolvem duas ou três etapas da rotina em um só item.
O BB Stick da Vult é um dos exemplos mais claros dessa lógica, combinando FPS 80 e cobertura natural num único bastão, eliminando a etapa separada de protetor solar facial e base para quem busca praticidade no dia a dia.
O projeto de redesenho das embalagens de Vult foi desenvolvido pela Valkiria, visando modernizar a marca com um olhar para a mulher urbana que busca produtos práticos e versáteis para facilitar sua rotina. Esse redesenho contou com uma pesquisa realizada com 450 consumidoras e revelou a importância de a marca retomar o preto (cor que a Vult usava até 2017, antes de ser adquirida pelo Grupo Boticário), como cor prioritária de marca e de embalagem. Ou seja, também aqui a resposta veio de uma escuta atenta ao consumidor sobre devolver ao público um código que ele já reconhecia e sentia falta, agora traduzido com uma nova linguagem visual.
A LabPOP lançou uma linha de sticks faciais direcionados a necessidades pontuais (olheiras, poros, manchas) pensados para praticidade e aplicação direcionada. A Brilhaê trouxe 32 itens híbridos conectando maquiagem, skincare e perfumação num mesmo produto.
É reflexo direto de um consumidor com rotina mais enxuta e nécessaire mais compacta, que quer eficácia sem abrir mão de agilidade. Para design de produto e embalagem, esse é um convite a repensar formato: menos "um pote para cada função" e mais objetos que carregam múltiplos propósitos sem perder clareza de uso.

7. A estética anos 2000 segue firme e ainda não deu sinal de cansaço
A nostalgia continuou muito presente. Foi impossível andar pela feira sem esbarrar em Hello Kitty, My Melody, Kuromi e Cinnamoroll estampando loções corporais e esmaltes, ou em uma coleção de maquiagem inspirada em Hannah Montana chegando ao Brasil para celebrar os 20 anos da série. Paleta em formato de borboleta, gloss em formato de microfone, um universo de embalagem pensado inteiramente para reativar memória afetiva de quem cresceu naquela década.
É um dos movimentos mais consistentes que temos visto no mercado de beleza nos últimos anos e a estética 2000 segue com fôlego forte. Do ponto de vista de design, é um território rico com personagens, cores, formatos e texturas trabalhando juntos para gerar reconhecimento imediato e um sorriso de quem lembra. Vale acompanhar de perto, e é um tema que também aprofundamos nesse conteúdo [aqui].

O que fica
A Beauty Fair 2026 confirmou o Brasil como protagonista global de beleza, não só em volume de consumo, mas também em capacidade de gerar tendência e atrair olhares de fora. E mostrou um mercado se movendo em várias frentes ao mesmo tempo: mais internacional, mais fluido entre físico e digital, mais experiencial e mais prático.
Para quem constrói marca, o desafio é sempre o mesmo: entender essas correntes sem se perder nelas. Usar o que faz sentido, ignorar o que é só ruído e manter uma identidade que segue reconhecível.
Quer transformar o que está acontecendo no seu setor em posicionamento de marca de verdade?
Na Valkiria, ajudamos marcas a ler o mercado com profundidade e traduzir isso em estratégia, identidade, embalagem e produto. Vamos conversar.








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